[artigo publicado originalmente na S/N com o título de "Algodão Doce Salgado".]
Por Alice Viveiro de Castro
- “Isto tudo é alegria?”
- “Não, metade é desespero.
(charge publicada na Revista Careta de 26 de Fevereiro de 1938)
Os cabelos arrepiados têm uma cor indefinida e começam muito depois de terminada a testa larga e vasta. Os olhos imensos marcados pela tinta negra contrastam com o branco que lhe cobre o rosto e esconde a face. O nariz é vermelho, redondo, lembrando um bêbado no último estágio da degradação. Mas o que mais impressiona é a boca vermelha, enorme, rasgada num esgar eterno. E é essa figura que dá alegria às crianças? É essa a figura associada às maçãs do amor e ao algodão doce????
O palhaço é herdeiro direto dos demônios de antiquíssimos rituais fúnebres. No meio da triste e solene cerimônia em que o corpo era entregue aos Deuses para a longa viagem, enquanto altos sacerdotes cantavam e dançavam com o comedimento que a tristeza pedia surgiam mascarados histéricos gritando e correndo, assustando a todos, provocando tamanho tumulto e algazarra que acabavam levando a tribo a um riso festivo e libertador.
A nobre arte da bobagem é coisa antiga e profunda… O palhaço é a mais enlouquecida expressão da comicidade. É tragicamente cômico. Tudo que é alucinante, violento, excêntrico e absurdo é próprio do palhaço. Ele não tem qualquer compromisso com o factível, com o possível, com a realidade.
Não me canso de admirar a complexidade desse ícone aparentemente tão insignificante e que no entanto tem um papel tão fundamental no precário equilíbrio das coisas.
A difícil arte do palhaço está em conseguir essa empatia distanciada com o público. Não há identificação como com as figuras da comédia. O palhaço não é um comediante, nem um personagem cômico apenas. Ele é o exagero do exagero do exagero. Algo muito além do entendimento, muito além da realidade. E por isso a ele é permitido trafegar entre o lirismo e o horror, entre o patético e o histérico sem nenhuma explicação ou aparente coerência. A lógica do palhaço é muito clara, tão clara que foge à nossa compreensão. Algo como aqueles sons que por muito graves escapam aos nossos limitados humanos ouvidos. E no entanto toda aquela besteirada faz sentido. Em algum lugar dentro de nós uma corda vibra.
O riso exige inteligência. Exige uma pressuposição de superioridade e a capacidade de questionar essa mesma superioridade. Aquele que ri se coloca em algum lugar acima do objeto de seu riso. Para rir de si mesmo é preciso ter a capacidade de se ver com distanciamento crítico. Eu que caio, eu que erro, eu estúpida sou vista, apreciada e julgada por mim, a que tem equilíbrio para se manter de pé, a que conhece a verdade e não errará, eu a sábia. Quem ri é quem sabe que não se deve fazer certas coisas. Quem ri tem noção do ridículo e só é capaz de rir porque reconhece o ridículo em si mesmo. Reconhece-se idiota e isso exige sabedoria.
A figura exagerada e louca do palhaço nos salva da pretensão e do terrível pecado da soberba. O palhaço /é nóis no chão/… O palhaço toma um pé na bunda, leva a torta na cara, tropeça e cai. Levanta, olha para o público que ri às gargalhadas da sua estupidez, dos seus fracassos, sacode os ombros levantando o colarinho e ri também. Não há derrota. Não há perdedor nem sofrimento. Há um palhaço entretendo seus semelhantes.
Millôr Fernandes ampliou Aristóteles dizendo que o homem é o único animal que ri e é rindo que ele mostra o animal que é. O riso é pleno de dor e sofrimento. Rimos da queda, rimos do erro, da inadaptação, da incapacidade de se adequar e de agir de forma apropriada. No entanto o riso é a forma saudável, humana, de lidar com a imensa dificuldade que temos de sermos corretos” e “adequados” segundo as rígidas e complexas leis que criamos para nós mesmos. O riso é a reação mais sensata à compreensão de que as regras não podem ser mais importantes do que nós.
O palhaço é o bode expiatório do nosso ridículo. A doce figura que segura um balão colorido e que afaga as criancinhas é o animal sacrificado na cerimônia que exorciza o medo de se saber falho e tolo. O medo de finalmente compreender que a imagem e semelhança de um Deus todo Poder e Força é só uma sombra distorcida que se amplia no muro. Quando o sol bate nos vemos pequenos, perdidos e… rimos.
Alice Viveiros de Castro é acrobata mental, atriz, ex-vedete, diretora de teatro e circo e autora do livro *O Elogio da Bobagem – palhaços no Brasil e no mundo* editado pela Família Bastos Editora com o patrocínio da Petrobras.