Quando vi pela primeira vez a lona do Soleil armada dentro do Parque Villa Lobos, tentei lembrar de qual foi o último circo instalado ali.
Depois de tentar bastante, concluí que eu nunca tinha visto outra lona por lá e achei bastante estranho.
Resolvi então recorrer ao Circomunicando, a lista de discussão da ASFACI (Associação de Famílias Circenses), para onde mandei um email perguntando se algum circo brasileiro já passara por aquela praça (*).
Em poucos minutos, as primeiras respostas chegaram, confirmando minha suspeita: A lona impecavelmente branca era uma das raras com permissão a aportar naquela praça [todas estrangeiras, a propósito], o que - de cara - me pareceu algo polêmico e discutível, me motivando a investigar de perto o assunto.
Procurei a Marlene Querubim, proprietária do Circo Spacial, que foi a primeira a responder o meu email na lista. Perguntei a ela sobre as tentativas e ela me contou que tentou por diversas vezes obter a permissão para atuar no parque, mantindo pela Secretaria Estadual do Verde e Meio Ambiente.
Segundo ela, a última solicitação foi feita ainda durante a gestão do Governador Geraldo Alckmin.
Nesta ocasição a alegação para a negativa, foi de que, por ser um espaço público, não poderia haver cobrança de ingresso e nem do estacionamento.
Ela então me deu uma dica: Havia mais um circo brasileiro que teve negados seus pedidos para uso do parque: o Circo Di Napoli, do empresário Beto Pinheiro.
Mais uma vez, a lista foi minha aliada e, em poucos dias, consegui um contato, não diretamente com o Beto, mas com seu filho, Humberto Paulinho Pinheiro.
Durante o agradável papo por telefone, onde confirmou as inúmeras negativas recebidas pelo Circo di Napoli, ele comentou sobre a temporada em que estiveram ao lado do parque, em um terreno cedido pelo Metrô. Humberto levantou ainda o fato de que, dos grandes circos nacionais, apenas o Circo Spacial e Circo Di Napoli não tem animais, o que automaticamente impede - por força da lei - todos os demais de se apresentarem na cidade.
Procurei então a Time for Fun (T4F) - empresa responsável pela produção local e pela promoção da turnê no país - e a Secretaria do Verde e Meio Ambiente,a quem a administração do parque está diretamente vinculada.
Durante a busca pelos contatos, descobri uma nota no Portal do Governo do Estado de São Paulo citando a “parceria” com o Cirque du Soleil, baseada em contrapartidas, como os cerca de 200 ingressos distribuídos à alunos de escolas públicas estaduais da Região da Represa Guarapiranga e ganhadores de “promoções culturais” promovidas pela SMA.
Outros “benefícios” do acordo são a construção de sede definitiva da 1a. Cia. Do 23º Batalhão da Polícia Militar, reforma do estacionamento e a instalação de placas indicativas pela região informando as entradas do parque.
Após contato telefônico com as assessorias de imprensa, tanto da T4F quanto da SMA, quando me apresentei e expliquei o meu interesse no assunto, encaminhei as seguintes perguntas , com o objetivo de entender um pouco mais sobre a escolha do Parque Villa Lobos como espaço para o Cirque du Soleil armar sua lona:
- Como foi o processo de escolha do parque Villa Lobos? Quais critérios foram considerados?
- A T4F entrou em contato com a Secretaria de Estado do Verde e Meio Ambiente ou foi a Secretaria que procurou a T4F?
- Sei que houve uma contrapartida pela cessão do espaço, relacionada a crianças e ONGs ambientalistas. Essa contrapartida foi a única exigência da Secretaria?
- Houve / há algum pagamento pelo espaço? (Não preciso saber valores, apenas se houve/ há ou não)
- Como a T4F se posiciona ante o fato de que a área cedida ao Soleil já foi negada por diversas vezes à circos brasileiros mas disponibilizada a uma Cia internacional?
- Como a Secretaria e, em especial, o Secretário Xico Graziano, se posiciona ante o fato de que a área (que é pública) ter sido cedida ao Soleil mesmo tendo sido negada por diversas vezes à circos brasileiros?
Até o momento não obtive resposta.
Dias depois, fui - pela segunda vez - assistir ao espetáculo Alegria.
Chegando ao estacionamento do parque, fui abordado por uma funcionária da ESTAPAR, que informava o valor (R$ 20,00) e a obrigação do pagamento antecipado pelo estacionamento.
Estranhei a situação, primeiro em função da alegação feita à Marlene sobre o impedimento de cobrança e, mais ainda, por ter deixado meu carro no mesmo espaço, gratuitamente, poucos dias antes, logo após a estréia de Alegria.
Inconformado, tentei reduzir o valor, apresentando o cartão do meu seguro, que confere descontos em todos os estabelecimentos da rede de estacionamentos, sem sucesso.
Solicitei então a presença da pessoa responsável pela operação, que ao aproximar-se, me explicou cordialmente que a Estapar fora contratada pela Time 4 Fun para organizar o estacionamento, mas que a administração e a renda estavam à cargo da contratante.
Tenho, ainda, muitas dúvidas e nenhuma resposta.
Gostaria muito de saber se as perguntas que fiz às assessorias de imprensa conseguirão responder:
- O que motivou a Secretaria a conceder a permissão para uma companhia de outro país, embora negue regularmente o mesmo para circos brasileiros?
- Qual a destinação da renda auferida com a cobrança (supostamente ilegal) do estacionamento?
- O governo está cobrando pelo uso do espaço? Caso esteja, é juridicamente aceitável?
- Basta pagar a conta de obras que deveriam ser financiadas com verbas resultantes dos impostos para ser beneficiado?
Estou indignado. Nada contra o Soleil, que considero bastante bom e onde atuam alguns amigos, mas não podemos nos calar diante de uma história tão mal explicada como essa.
Tenho esperanças de conseguir entender exatamente o que aconteceu e que a lona branca seja o início de um novo tempo, onde o Parque Villa Lobos seja reconhecidos como uma praça de circo.
Em tempo: O Cirque du Soleil não tem (até prova em contrário) qualquer responsabilidade sobre a seleção do Parque Villa Lobos como espaço para as apresentações. A produtora é quem busca o local que atenda aos requisitos técnicos e logísticos, estes sim, fornecidos pelo circo.
(*) Praça é como os circenses se referem às cidades e espaços que ocupam durante a itinerância de suas turnês.
[Este post está participando do movimento de BLOGAGEM INÉDITA promovido pelo Interney.net]
UPDATE 30/08/2008: Este post está com a tag #blogcidadão, resultado de uma discussão excelente sobre Governança e Blogs, que rolou no BlogCampSP