Archive for February, 2008

Lirismo, sátira e poesia

Tuesday, February 26th, 2008

O palhaço branco de AlegriaFinalmente assisti ao espetáculo “Alegria”, do Cirque du Soleil, em cartaz em São Paulo.

Com excessão de dois ou três números, todos os demais são excepcionais, caso do Trapézio em Balanço [que é, sem sombra de dúvida, o melhor que já vi], do Fast Track e da Barra Russa.

Entretanto, quem rouba totalmente a cena e cativa o espectador é o excelente trio de Palhaços, com destaque para o brasileiro Marcos Casuo e seu lindo cavalinho.

Em esquetes ora líricas, ora satíricas, eles trazem ainda mais poesia ao espetáculo e encantam adultos e crianças.

Crédito da Foto: Al Seib

“Metade é desespero”

Thursday, February 21st, 2008

[artigo publicado originalmente na S/N com o título de "Algodão Doce Salgado".]

Por Alice Viveiro de Castro

- “Isto tudo é alegria?”

- “Não, metade é desespero.

(charge publicada na Revista Careta de 26 de Fevereiro de 1938)

Os cabelos arrepiados têm uma cor indefinida e começam muito depois de terminada a testa larga e vasta. Os olhos imensos marcados pela tinta negra contrastam com o branco que lhe cobre o rosto e esconde a face. O nariz é vermelho, redondo, lembrando um bêbado no último estágio da degradação. Mas o que mais impressiona é a boca vermelha, enorme, rasgada num esgar eterno. E é essa figura que dá alegria às crianças? É essa a figura associada às maçãs do amor e ao algodão doce????

O palhaço é herdeiro direto dos demônios de antiquíssimos rituais fúnebres. No meio da triste e solene cerimônia em que o corpo era entregue aos Deuses para a longa viagem, enquanto altos sacerdotes cantavam e dançavam com o comedimento que a tristeza pedia surgiam mascarados histéricos gritando e correndo, assustando a todos, provocando tamanho tumulto e algazarra que acabavam levando a tribo a um riso festivo e libertador.

A nobre arte da bobagem é coisa antiga e profunda… O palhaço é a mais enlouquecida expressão da comicidade. É tragicamente cômico. Tudo que é alucinante, violento, excêntrico e absurdo é próprio do palhaço. Ele não tem qualquer compromisso com o factível, com o possível, com a realidade.

Não me canso de admirar a complexidade desse ícone aparentemente tão insignificante e que no entanto tem um papel tão fundamental no precário equilíbrio das coisas.

A difícil arte do palhaço está em conseguir essa empatia distanciada com o público. Não há identificação como com as figuras da comédia. O palhaço não é um comediante, nem um personagem cômico apenas. Ele é o exagero do exagero do exagero. Algo muito além do entendimento, muito além da realidade. E por isso a ele é permitido trafegar entre o lirismo e o horror, entre o patético e o histérico sem nenhuma explicação ou aparente coerência. A lógica do palhaço é muito clara, tão clara que foge à nossa compreensão. Algo como aqueles sons que por muito graves escapam aos nossos limitados humanos ouvidos. E no entanto toda aquela besteirada faz sentido. Em algum lugar dentro de nós uma corda vibra.

O riso exige inteligência. Exige uma pressuposição de superioridade e a capacidade de questionar essa mesma superioridade. Aquele que ri se coloca em algum lugar acima do objeto de seu riso. Para rir de si mesmo é preciso ter a capacidade de se ver com distanciamento crítico. Eu que caio, eu que erro, eu estúpida sou vista, apreciada e julgada por mim, a que tem equilíbrio para se manter de pé, a que conhece a verdade e não errará, eu a sábia. Quem ri é quem sabe que não se deve fazer certas coisas. Quem ri tem noção do ridículo e só é capaz de rir porque reconhece o ridículo em si mesmo. Reconhece-se idiota e isso exige sabedoria.

A figura exagerada e louca do palhaço nos salva da pretensão e do terrível pecado da soberba. O palhaço /é nóis no chão/… O palhaço toma um pé na bunda, leva a torta na cara, tropeça e cai. Levanta, olha para o público que ri às gargalhadas da sua estupidez, dos seus fracassos, sacode os ombros levantando o colarinho e ri também. Não há derrota. Não há perdedor nem sofrimento. Há um palhaço entretendo seus semelhantes.

Millôr Fernandes ampliou Aristóteles dizendo que o homem é o único animal que ri e é rindo que ele mostra o animal que é. O riso é pleno de dor e sofrimento. Rimos da queda, rimos do erro, da inadaptação, da incapacidade de se adequar e de agir de forma apropriada. No entanto o riso é a forma saudável, humana, de lidar com a imensa dificuldade que temos de sermos corretos” e “adequados” segundo as rígidas e complexas leis que criamos para nós mesmos. O riso é a reação mais sensata à compreensão de que as regras não podem ser mais importantes do que nós.

O palhaço é o bode expiatório do nosso ridículo. A doce figura que segura um balão colorido e que afaga as criancinhas é o animal sacrificado na cerimônia que exorciza o medo de se saber falho e tolo. O medo de finalmente compreender que a imagem e semelhança de um Deus todo Poder e Força é só uma sombra distorcida que se amplia no muro. Quando o sol bate nos vemos pequenos, perdidos e… rimos.

Alice Viveiros de Castro é acrobata mental, atriz, ex-vedete, diretora de teatro e circo e autora do livro *O Elogio da Bobagem – palhaços no Brasil e no mundo* editado pela Família Bastos Editora com o patrocínio da Petrobras.

May the force be with you …

Wednesday, February 13th, 2008

StarWars Brasil - http://www.starwarsbrasil.com.br/Em março desembarca por aqui uma exposição imperdível para nerds e geeks fãs - como eu - de Star Wars.

O porão das artes da Bienal vai receber cerca de 200 itens da saga.

Ao que parece, entre a memorabilia poderemos ver de perto 4 veículos originais, sabres de luz - destaque da “mesa de armas”

Mr Anthony Daniels, que interpretou C3PO, virá para a abertura :-)

O site oficial já está no ar em www.starwarsbrasil.com.br

Um dia triste para o Circo e para a TV

Friday, February 1st, 2008

logo_beto.jpgO Brasil amanheceu mais triste, não só entre os circenses e os comediantes da TV.

Crianças, adultos, todos comentando o prematuro falecimento deste grande expoente do circo, do riso, da diversão.

Nascido João Batista Sérgio Murad, era conhecido pelo seu inesquecível e eterno personagem: o caubói Beto Carrero e pelo característico som do chicote cortando o ar.

Tive o privilégio de conhecê-lo quando eu era adolescente e - nem de longe - pensava em ser circense. O que mais me marcou foi uma coisa aparentemente banal: Ao perguntar meu nome, de forma honestamente interessada, abriu um enorme sorriso com a resposta e me contou que era o mesmo nome de seu pai.

Vai em paz Beto Carrero. Descanse e tenha certeza que somos muitos gratos a tudo o que você fez aqui embaixo, especialmente acreditando e incentivando o circo e sua arte milenar.

Abaixo reproduzo o comunicado oficial, presente no site www.betocarrero.com.br


Comunicado Oficial’

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